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Minha vida parte 5- A mudança


Casa do tesouro
Hoje estamos de mudança! Depois de mais de vinte anos vivendo aqui no Tesouro estamos nos mudando para o Vale dos Pinheiros. Na verdade a gente queria era voltar para o Jardim Paulista. Lá íamos poder dar mais atenção às nossas mães, minha e de minha esposa, mas as casas são mais caras e não vai dar pra fazer isso. Levarei do Tesouro só as boas lembranças porque das tristes eu me esquecerei. Aqui meus filhos cresceram e estudaram. Aqui brincaram nas ruas sem asfalto. Correram, aprenderam a andar de bicicleta, fizeram boas amizades. Lembrarei com saudade das festas juninas que eram organizadas por todos os moradores do nosso quarteirão. Lembro bem que até peça de teatro foi organizada e ficou muito bonita.  
Festa junina na rua
Nossos bolinhos caipiras, o quentão, o Japa tomando sua cervejinha. Não dá para falar do Japa sem mencionar o Birô. Grande homem! Sua pequena estatura era compensada com a sua honestidade, honradez e amizade. Lembro bem um dia em que estávamos eu, ele e o Carmo na casa do Japa, sempre tomando umas biritas, quando ele resolveu me desafiar: - Então Mané! Você é metido a poeta, quero ver se consegue escrever alguma coisa com esse tema: “apogeu da miséria”.  Sai da casa do Japa e cinco minutos depois voltei com uma alguma coisa assim: “Você foi razão da minha vida, Você foi razão do meu viver, Com você... só com você eu fui feliz, Com você toda glória alcancei. Hoje abatido sofro tanto, Sou menos que nada sou ninguém, Sem você, Sem você meu grande amor, No apogeu da miséria vou morrer”. Então ele me abraçou e disse: - Você é porreta! Grande BiroBiro! Todas as vezes que eu ouvir um bolero com o Carlos Alberto me lembrarei de você. Que Deus tenha lhe dado um bom lugar no céu. Eu e o meu filho Vinicius fizemos um sambinha dessa letra.

Daniel no Vale dos Pinheiros
Pois é, como eu previa o bairro cresceu e cresceu muito que até perdeu o encanto. Eu vi esse bairro crescer, sair do nada e ser grande. Hoje a igrejinha é igrejona, temos escola estadual, municipal e creches. Mudou muito, mudamos nós. As crianças já não são mais crianças. Meu filho Vinicius está vivendo e estudando em Florianópolis. O Nilson em breve deve se casar e nossa preocupação passa a ser a minha mãe, a mãe da Sidélia, e nosso pequeno filhinho, Daniel, que Deus nos deu depois de vinte e cinco anos de casados. Estou escrevendo e as lembranças dançam na minha mente. Eu vivo, e posso dizer que todos vivem do passado. Temos os olhos à frente, no futuro, mas nossa história está sempre no passado. Santo Agostinho dizia que não existe o tempo presente. Vivemos a perspectiva do futuro sempre no passado. Cada instante na nossa vida já é passado e o presente é o futuro que está passando. Vou embora como outros já foram. Levarei e acredito que deixarei saudade. Aqui nas ruas sem asfalto voltei a ser um pouco criança quando brincava com meus filhos e seus amigos. Brincar de rodar pião, bolinhas de gude e até futebol. Quando então a rua foi asfaltada ela virou quadra de vôlei para a molecada, e até nós adultos, ou então ringue de patinação ou manobras com skate. A Nani nos patins e a rapaziada nos skates.
Skate no asfalto
Não irei esquecer pessoas que fizeram parte da minha vida como o Paulo e Vera, Carmo e Carmem, Dona Maria e seus netos. O Reinaldo (Japa) foi embora para o Japão com toda sua família. Lembrarei com carinho da Dona Antonia e Seu Expedito, Carlos e seus filhos, Geralda, Lúcia. Não posso esquecer a Nívea, esposa do Biro e sua filha Lú. Os filhos da Vera e Paulo, afinal o Maurício é nosso afilhado, e muitas outras pessoas porque são partes da minha história. Amanhã estarei acordando em outro bairro, mas a minha história é contínua até que chegue a minha vez de sair de cena.

Manoel
2005
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4 comentários:

  1. Essas lembranças do tempo em que tínhamos raízes são fantásticas. Doem, mas nos fazem sorrir.

    Muito bom o texto, Manoel.

    Abraços

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  2. Estamos aqui também, é bom lembrar das nossas estórias dos tempos que noa faziam bem. E como faziam!
    Abraço

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  3. Olá Manoel querido!
    As passagens de sua vida, essas lembranças acho que falam um pouco por todos nós que também, um dia, estivemos em lugares que cresceram, absorveram a "modernidade" e deixaram as brincadeiras, a inocência e até a poesia cravados em nossa memória!
    Adorei! Viajei contigo e parecia que eu conhecia cada pessoa que você citou... Muito bom mesmo!
    Grande beijo,
    Jackie

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  4. Olá Manoel.
    Afinal as boas recordações merecem serem guardadas,reveladas lembradas sempre!
    O que seria de nós, contadores de histórias, Poetas, sem as nossas memórias ?
    Lendo seu texto, pude lembrar-me das minhas casas antigas, com todos que amei e já partiram.
    Foi muito bom!
    Abraços

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