Hoje
estamos de mudança! Depois de mais de vinte anos vivendo aqui no Tesouro
estamos nos mudando para o Vale dos Pinheiros. Na verdade a gente queria era
voltar para o Jardim Paulista. Lá íamos poder dar mais atenção às nossas
mães, minha e de minha esposa, mas as casas são mais caras e não vai dar pra
fazer isso. Levarei do Tesouro só as boas lembranças porque das tristes eu me
esquecerei. Aqui meus filhos cresceram e estudaram. Aqui brincaram nas ruas sem
asfalto. Correram, aprenderam a andar de bicicleta, fizeram boas amizades.
Lembrarei com saudade das festas juninas que eram organizadas por todos os
moradores do nosso quarteirão. Lembro bem que até peça de teatro foi organizada
e ficou muito bonita.
Festa junina na rua
Nossos bolinhos caipiras, o quentão, o Japa tomando sua
cervejinha. Não dá para falar do Japa sem mencionar o Birô. Grande homem! Sua
pequena estatura era compensada com a sua honestidade, honradez e amizade. Lembro
bem um dia em que estávamos eu, ele e o Carmo na casa do Japa, sempre tomando
umas biritas, quando ele resolveu me desafiar: - Então Mané! Você é metido a
poeta, quero ver se consegue escrever alguma coisa com esse tema: “apogeu da
miséria”. Sai da casa do Japa e cinco
minutos depois voltei com uma alguma coisa assim: “Você foi razão da minha vida, Você foi razão do meu viver, Com
você... só com você eu fui feliz, Com você toda glória alcancei. Hoje abatido
sofro tanto, Sou menos que nada sou ninguém, Sem você, Sem você meu grande
amor, No apogeu da miséria vou morrer”. Então ele me abraçou e disse: -
Você é porreta! Grande BiroBiro! Todas as vezes que eu ouvir um bolero com o
Carlos Alberto me lembrarei de você. Que Deus tenha lhe dado um bom lugar no
céu. Eu e o meu filho Vinicius fizemos um sambinha dessa letra.
Pois
é, como eu previa o bairro cresceu e cresceu muito que até perdeu o encanto. Eu
vi esse bairro crescer, sair do nada e ser grande. Hoje a igrejinha é igrejona,
temos escola estadual, municipal e creches. Mudou muito, mudamos nós. As
crianças já não são mais crianças. Meu filho Vinicius está vivendo e estudando em Florianópolis. O
Nilson em breve deve se casar e nossa preocupação passa a
ser a minha mãe, a mãe da Sidélia, e nosso pequeno filhinho, Daniel, que Deus
nos deu depois de vinte e cinco anos de casados. Estou
escrevendo
e as lembranças dançam na minha mente. Eu vivo, e posso dizer que
todos vivem do passado. Temos os olhos à frente, no futuro, mas nossa
história
está sempre no passado. Santo Agostinho dizia que não existe o tempo
presente.
Vivemos a perspectiva do futuro sempre no passado. Cada instante na
nossa vida
já é passado e o presente é o futuro que está passando. Vou embora como
outros
já foram. Levarei e acredito que deixarei saudade. Aqui nas ruas sem
asfalto
voltei a ser um pouco criança quando brincava com meus filhos e seus
amigos. Brincar de rodar pião, bolinhas de gude e até futebol. Quando
então a rua foi asfaltada
ela virou quadra de vôlei para a molecada, e até nós adultos, ou então
ringue
de patinação ou manobras com skate. A Nani nos patins e a rapaziada nos
skates.
Não irei esquecer pessoas que fizeram parte da minha vida como o Paulo e
Vera,
Carmo e Carmem, Dona Maria e seus netos. O Reinaldo (Japa) foi embora
para o
Japão com toda sua família. Lembrarei com carinho da Dona Antonia e Seu
Expedito, Carlos e seus filhos, Geralda, Lúcia. Não posso esquecer a
Nívea,
esposa do Biro e sua filha Lú. Os filhos da Vera e Paulo, afinal o
Maurício é
nosso afilhado, e muitas outras pessoas porque são partes da minha
história.
Amanhã estarei acordando em outro bairro, mas a minha história é
contínua até
que chegue a minha vez de sair de cena.
Olá Manoel querido! As passagens de sua vida, essas lembranças acho que falam um pouco por todos nós que também, um dia, estivemos em lugares que cresceram, absorveram a "modernidade" e deixaram as brincadeiras, a inocência e até a poesia cravados em nossa memória! Adorei! Viajei contigo e parecia que eu conhecia cada pessoa que você citou... Muito bom mesmo! Grande beijo, Jackie
Olá Manoel. Afinal as boas recordações merecem serem guardadas,reveladas lembradas sempre! O que seria de nós, contadores de histórias, Poetas, sem as nossas memórias ? Lendo seu texto, pude lembrar-me das minhas casas antigas, com todos que amei e já partiram. Foi muito bom! Abraços
Essas lembranças do tempo em que tínhamos raízes são fantásticas. Doem, mas nos fazem sorrir.
ResponderExcluirMuito bom o texto, Manoel.
Abraços
Estamos aqui também, é bom lembrar das nossas estórias dos tempos que noa faziam bem. E como faziam!
ResponderExcluirAbraço
Olá Manoel querido!
ResponderExcluirAs passagens de sua vida, essas lembranças acho que falam um pouco por todos nós que também, um dia, estivemos em lugares que cresceram, absorveram a "modernidade" e deixaram as brincadeiras, a inocência e até a poesia cravados em nossa memória!
Adorei! Viajei contigo e parecia que eu conhecia cada pessoa que você citou... Muito bom mesmo!
Grande beijo,
Jackie
Olá Manoel.
ResponderExcluirAfinal as boas recordações merecem serem guardadas,reveladas lembradas sempre!
O que seria de nós, contadores de histórias, Poetas, sem as nossas memórias ?
Lendo seu texto, pude lembrar-me das minhas casas antigas, com todos que amei e já partiram.
Foi muito bom!
Abraços